O estudo da Deco é igual ao litro

Renault ClioA Deco nunca teve muita credibilidade nos testes e exames que fazem para vender as suas revistas, mas devo dizer que para Marketing têm algum jeito.

Dizem que compraram 4 carros de forma anónima, que obtém combustível em postos diferentes e colocam 4 pilotos profissionais a percorrer 12.000km para ver se existem diferenças nos combustíveis. No final lançam uma landing page digna de uma campanha viral a pedir para subscrever um abaixo assinado e para se tornar sócio da Deco.

Depois lançam um vídeo que as únicas imagens interessantes é a remoção dos pistons do motor e chegam à conclusão que os combustíveis são iguais.

Lá fora, infelizmente, fazem melhor

Testes aos combustíveis não são novos. A Auto Plus (França) chegou a fazer um teste em laboratório ao gasóleo de várias marcas e encontrou diferenças entre aditivos, o índice de cetano, o poder lubrificante e a criação de espuma.

O Fifth Gear (Inglaterra) efectuou também alguns testes de potência e verificou que, curiosamente também num Renault Clio, não existiam ganhos de potência ao usar um combustível aditivado, já num Golf e num Subaru existia um aumento de potência significativo. Isto volta a mostrar que os combustíveis não são iguais, agora se compensa em todos os carros é outra história.

Por cá já tinham efectuado um suposto teste que comparou os combustíveis dum posto Galp Base (que são Hi-Energy) com os combustíveis dum posto Galp normal (que também são Hi-Energy) e combustíveis da BP, e chegaram à brilhante conclusão que os combustíveis eram iguais, menos a amostra que recolheram na BP que tinha diferenças.

A Deco foi pelo mesmo caminho.

Aprender a fazer testes

Eu até podia aplaudir o teste da Deco se a conclusão fosse outra. Podiam dizer que para um carro de baixa cilindrada ou com pouca potência as diferenças são mínimas e não compensa em termos de consumos o combustível mais caro, mas o teste tinha que ser feito de outra maneira.

Primeiro não podemos usar quatro carros da mesma marca e modelo e dizer que são iguais. O processo de fabrico de um processador para computador é totalmente automatizado em autênticos laboratórios e mesmo assim existem diferenças, imaginem num motor que tem uma componente humana na sua criação. O próprio motor é testado em bancada na fábrica e acusa valores de potência diferentes entre outros motores “iguais”.

Para conseguirmos chegar a uma conclusão precisamos de usar o mesmo carro e o mesmo condutor nas mesmas condições, afinal de contas o que estamos aqui a testar é o combustível. É isto que dá validade por exemplo aos testes do Top Gear, o piloto e a pista são sempre os mesmos e existe uma diferença de tempos conhecida entre uma pista seca ou molhada.

Depois temos que definir o que estamos afinal a testar. Queremos saber se existem diferenças entre os combustíveis? Pedimos a uma entidade independente para fazer a recolha de combustíveis e outra entidade para fazer a análise em laboratório e enviar os resultados. Queremos saber se existem ganhos de potência? Usamos uma célula de combustível e um banco de potência e fazemos alguns testes com os vários combustíveis no mesmo carro, em vários carros de gamas diferentes. Queremos saber se compensa atestar com um combustível mais caro? Fazemos 5 ou 10 depósitos com cada combustível no mesmo percurso com o mesmo condutor e fazemos a média de cada um, com vários carros de gamas diferentes. Queremos comparar as capacidades de limpeza de cada combustível? Aqui sim podemos ter vários carros “iguais” e fazer um teste de longa duração com vários condutores a trocar de carro para que todos sejam sujeitos ao mesmo tipo de condução, mas o carro deve ter sempre o mesmo combustível. E 12.000km não é longa duração, eu faço isso em 5 ou 6 meses e o carro durante a semana deve andar 1 hora por dia.

Ser transparente ajuda à credibilidade

Algo que aprendi é que ser transparente aumenta a nossa credibilidade e confiança. E o teste da Deco não tem transparência nenhuma. Tinham ali material para fazer um episódio digno do Mythbusters, onde podiam mostrar a recolha dos combustíveis, o abastecimento e a troca de condutores, mostrar as válvulas e pistons de todos os motores, identificando claramente o motor 1, 2, 3 e 4. E deviam ter usado também combustível da BP e da Repsol.

Foi uma oportunidade perdida pela Deco para informar de forma isenta os consumidores, mas foi uma boa estratégia de Marketing. Dizer o que os consumidores querem ouvir e depois pedir os seus dados para os bombardear de publicidade mais tarde e tentar obter mais um associado 😉

Eu sempre o disse aqui, existem diferenças entre combustíveis. Agora se realmente compensa isso já é outra história. Eu sempre verifiquei que a gasolina da Galp me dava menos rendimento que a da BP e da Repsol, no gás o da BP e da Galp eram uma miséria (até acendia a luz do motor), gasóleo nunca testei. Agora tudo isto depende de carro para carro.

No Smart da minha namorada, sem ela saber, já lhe fiz este teste e como sou eu que abasteço acabo por fazer a média entre depósitos e verifiquei que com gasolina aditivada o consumo era inferior mas não compensava a diferença de preço. No 406 Coupé a história já era diferente e compensava realmente o combustível aditivado. Já com o C6 que é a gasóleo não compensa monetariamente em termos de consumos e não noto diferença em termos de potência, mas nota-se o motor a vibrar quando não tem combustível aditivado e consigo sentir quando a FAP está a fazer a regeneração.

Cada caso é um caso e depende muito do carro, da sua utilização e tipo de condução praticados, pois não compensa para toda a gente. E isto é muito diferente de dizer que todos os combustíveis são iguais.

Detalhe Maserati MC12Fifth GearPreço dos combustíveis online

Comentários a “O estudo da Deco é igual ao litro”

Jorge Xavier comentou:
26/11/2012 12:59

Excelente artigo, caro Eduardo. Parabéns!

Daniel Marques comentou:
26/11/2012 13:49

Escusado será dizer que após a saída da notícia, andei por aqui insistentemente até que surgisse este post.
¡Gracias!

Sapo comentou:
19/12/2012 17:17

Caro Eduardo

Belo post. Não é preciso perceber muito de automóveis para verificar o fiasco do “teste”. Ha uns anos era associado da deco e num testo a máquinas fotográficas quantificavam a “qualidade da lente”. Enviei emails e liguei diversas vezes a perguntar quais os critérios da “qualidade”. Uma associação de defesa do consumidor que age assim deixa algumas duvidas.. Além disso nunca em tempo algum resolveram qualquer conflito de consumo. Um must portanto

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